17 dezembro 2006

Olhando para o céu.

Não sei roubar no jogo da sensibilidade. Na verdade acho até que não sou eu quem joga, sou só uma pecinha, variável às vezes insignificante que se entrega às regras do jogo e deixa rolar pro que der e vier.
Uma vez ele leu pra mim uns trechos de seu trânsito astral e achei graça porque falava tudo com tanta perfeição, com as palavras certas, e os personagens eram tão nítidos que jurei que ele inventava tudo aquilo. Foi engraçado quando pude ler por mim mesma e descobri que o tal programa de sinastrias, coisa e tal, nos conhecia de fato e não estava pra brincadeira.
Pela primeira vez em muito, muito, muito tempo, sinto-me segura e feliz. Descubro todos os dias uma saudade imensa de tudo que tenho pra viver, uma linda nostalgia do futuro que se renova em cada despedida e se me impulsiona ciclicamente, dia após dia, tão certo como o nascer do Sol.
Não tenho saudade do sonho, vivo a realidade.
Amo.

31 outubro 2006

Ronaldo

Meu querido, como doeu ficar tão longe... Nem tua nova casa eu conheci ainda. Não te dei meu abraço de mãe na hora mais delicada, nem te lembrei da longa vida pra viver valendo muito mais que qualquer momento de sono.
Acho mesmo que me afastei dos sonhos virtuais tentando me estruturar no emprego novo. Sabe, andei fugindo, parei de escrever, um pouco por falta de tempo, mas principalmente pra acostumar o corpo e não instigar a alma pra continuar trilhando as belezas e prazeres que estão sempre tão longe da dura realidade que me envolve.
Estou com saudades, meu querido. De você, do que tuas palavras me inspiravam sempre, saudade da intensidade das paixões irrealizáveis. Sinto falta de partilhar os sabores que só a madrugada traduz. É verdade, sinto saudades de você e de tudo e do pouco que pude conhecer te lendo.
Cuide-se meu poeta. Mantenha o ar fluindo, o sangue regando os desejos, as palavras explodindo pra quem passar perto lembrar também de querer amar. Cuide do corpo pra que a tua alma inquieta e apaixonante continue sempre a cada vez mais, nutrindo quem tiver a sorte de te olhar.
Grande beijo, da atriz.

09 outubro 2006

Depois de assistir à peça de Johhny Cagyn

Também tenho momentos e fases significativos em minha vida. Acredito que todos tenham. Mergulhar no Indispensável Exercício Sobre o Nada me fez refletir sobre o que aprendi até hoje sobre amor e medo.
Não fui menina namoradeira, na verdade meus óculos e as pilhas de livros me fizeram passar despercebida na adolescência. Não o suficiente pra me proteger da dor, de amar e errar. Na verdade não era desejada, mas amava. Era admirada pelo inusitado da timidez extrema contrastando com a expressividade. Quantas vezes sentada ao lado de um garoto nos trabalhos escolares eu desejei ser outro corpo que fosse capaz de provocar distração, erros, advertências, quando tudo o que conseguia era ser garantia de uma boa nota ao felizardo que dividisse comigo um seminário na aula de química. Verdade. Antes de aprender o medo de amar tirei diploma em solidão.
Segui o rio, beijei a primeira vez, transei a primeira vez, tive dúvidas, senti culpa, fiz teste de farmácia, chorei no banheiro. Segui o rio.
Ainda sem medo encontrei um amor. Alguém que via além dos óculos e livros. Ainda mais tímido que eu, ainda menos apto ao sofrimento, ainda mais solitário. Com ele acreditei na arte e fui brincar de ser atriz, depois levar a sério, aprender o ofício de ser musa pra apenas um par de olhos. Mergulhei fundo e amei além da conta, do nexo, do possível, do admissível. Cultivei sonhos e construí perspectivas baseadas numa reviravolta do destino. Fiz um filho, comprei um anel, botei no papel. Foi amor sim, daqueles de novela, de se rasgar a fantasia de porta-bandeira em nome do grande amor. Um erro, não pelo amor, por amar, por ele... Minha maior lição a caminho do medo: O amor não muda as pessoas. Beijei a última vez, transei a última vez, tive dúvidas, senti culpa, fiz teste de farmácia, chorei no banheiro. Virei a página.
Os anos passaram. Amortecimento. Um flerte, paquera virtual revelou o medo dominando minhas horas. Olhei pela fresta, abri a janela e o argonauta de sonhos botou diante de mim um espelho. Espantada com a cor dos meus olhos emoldurados de novas e insistentes rugas, nem percebi que ele vinha de passagem. Brincou com o medo, desafiou o destino e se foi. Mas deixou a janela aberta...
Outros também sorriram e calaram. Bocas, mãos, suores e alguma saudade caprichosamente guardada a espera de outro beijo. Mas não amor.
Os olhos tristes me lembraram da vida real, foram a transição do amor idealizado ao exercício efetivo da solidão, autêntica, bruta, mas verdadeira. Ele se foi, pra nunca mais, pra bem melhor e pela primeira vez lamentei o beijo que não foi dado. Não o culpo pela saudade que ficou.
Tentei ainda mais uma vez a proteção do sonho, carregado de promessas. Um ser alado percorreu minhas noites, preencheu minha alma. Cobrou obediência e entrega, paixão, luxúria, fantasias intermináveis de nunca se realizar, testou meus limites, quebrou meu espelho e com meus dedos feridos dos cacos lembrei de novo do medo. Assim como veio impondo realidades, partiu para seus próprios sonhos. Em troca me provou que os espelhos em que me via eram pequenos. Hoje me conheço mais.
Decidida a fincar os pés no chão, fui pega numa armadilha. Nas luzes coloridas, fumaça azulada, brincadeira sagrada dos deuses senti que a realidade é muito mais sensível ao tato e à perda, mais instigante no jogo da conquista e mais dolorosa no desprezo. Era tanto desejo que virou promessa de não dar certo. Difícil entender? Ora, qualquer um pode ter medo de amar. (Nestas horas ainda é melhor a utopia que o fato).
Sempre tantas horas de espera, sempre tanta tristeza de não se saber o fim, e finalmente dei uma volta no destino. Foram nas palavras, (escritores, ai escritores!) que ele confessou um olhar tímido, de desejo. Eu confessei um respeito calculado, a admiração, o desejo enfim. E nossas bocas seguiram confessando pecados já sabidos, e os corpos como prova nos desnudaram a vontade de rir do destino. Ainda há névoas que turvam meus olhos, sensação de quase cair e necessidade de respeitar o medo. Mas nada esconde os eclipses.
Numa reflexão muito breve e em nada definitiva, conclui que tenho medo de amar, sim. Amar uma entrega, um sofrimento de bem querer, uma vontade de mudar o mundo, uma paixão de sair do prumo. Tenho medo. Mas quero. E vou.


Serviço da peça Indispensável Exercício sobre o nada.

A música "Eleanor Rigby" é a matriz da peça "Indispensável Exercício Sobre o Nada" que está em cartaz em São Paulo. A peça, inspirada pela canção de McCartney e Lennon, acontece em um casarão onde o público (a lotação é de apenas 30 pessoas) acompanha a encenação por 4 ambientes, sempre muito próximo, sempre muito íntimo das situações vividas pelos atores em cena.

SINOPSE DA PEÇA:
Eleanor atropela um desconhecido e, após socorrê-lo, descobre que ele perdeu a memória. Os dois se apaixonam, porém a identidade deste desconhecido revela-se um problema para a relação.
-
Texto e Direção: Johnny Kagyn
Com: Geovane Fermac e Kalina Svidevska
-
Quintas ás 21h
CASARÃO DO BELVEDERE

Rua Pedroso, 267 (metrô São Joaquim)
Informações e Reservas: (11)3266-5272
reservas@casaraodobelvedere.com.br
Ingressos: R$10,00 a R$20,00

23 setembro 2006

Velhos, novos tempos

E tanto se fêz a feminização do mundo, tanto se proclamou o hedonismo, mas a mulher continua olhando com o canto dos olhos e escondendo na gola da blusa as marcas da última paixão.

Para a amiga cigarra

Adoro a virtualidade que me trouxe pra perto de você. Odeio também porque nessa hora só um abraço poderia explicar o carinho que sinto, a disponibilidade pra te ouvir rasgando o peito e vertendo canções. Se estivesse mais perto, talvez te procurasse fingindo entender a pequenez do mundo e me mostrasse amiga irmã pra te consolar, mas no fundo era só pretexto pra ganhar colo e chorar junto tudo que não nos cabe e persiste em forçar as paredes no coração.

Força, menina. Aí dentro têm espaço pra muito mais alegrias.

Hoje vou rezar um brigadeiro em tua homenagem.

15 setembro 2006

Solidão segundo Mário

Fiquei olhando pra tela do computador, morrendo de sono, esperando ele chegar pra me dizer como foi o espetáculo de hoje, mandar um beijo e dizer boa noite. Ele veio, a peça foi boa, e o peso do cansaço dos dois precipitou os beijos de boa noite no msn em poucos minutos. Desliguei lá e fui passear nos blogs, li de novo o que ele me escreveu na sua página, cliquei num link e acabei chegando aqui.
Senti cada sim e não do teu belíssimo texto e me deu uma puta vontade de desligar o computador e ir lá pra casa dele... E eu nem estava pensando em falar de solidão no comentário.

09 setembro 2006

Liberdade de querer o não - Heresia apaixonada

No caleidoscópio de versos, meus olhos se perderam.
Tanto amor, tanto, tanto... E a liberdade pontuando a rima que só os apaixonados sabem ler.
Fui presa de uma verdade, emoldurada por Pessoa:

"Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre."

Sim, percebo agora.
O que fazer se o que eu nem imaginava querer é hoje o que me preenche a alma e obriga a questionar se Deus nos deu o livre arbítrio por amor ou por rancor das bocas, que muito além da prece, encontram no beijo a expressão mais próxima de felicidade.

Sonho de Louco

Como dói mergulhar no mundo fragmentado, esplodido e ensanguentado de um Louco e Ainda ser capaz de entender cada vírgula, cada pausa, cada gemido de dor.
Tudo começou quando li, não a Li me chamou e disse: Se quiser fazer teatro, é só me falar.
Perdida no tempo, gorda, cansada, rouca eu fui. Conheci o Louco e aí sim que tudo começou.
Não acreditava Ainda na volta, mas lia e brincava de ser verdade. Não tinha entendido Ainda tudo, claro, encadeado, mas suava os desejos de um Louco, por ele, por ela (O Louco e sua mulher, não a musa)
Faltava Ainda a viabilidade. Uma festa frustrante nos embebedou a todos e dissemos que Ainda era possível fazer a vontade do Louco.
Depois daquilo um recomeço, sem madeira nem papel e tinta, sem roupas nem sapatos. Ajuda Ainda não tinha, mas a voz já soava alta e os jogos do Louco eram mais nítidos pra mim.
Veio a ajuda, outras tantas ajudas foram pagas que generosidade tem seu preço, sempre. E a imagem do Louco ficou pronta. Fora do lugar, Ainda isso, como levar o sonho do Louco pro lugar que era certo? (Errado, lugar errado, que seja, porra!!!!) E mais generosidade paga em prestações.
Chegou, é aqui, mas não era assim que a gente tinha sonhado! No papel, assinado pelo Louco, empenhando seu nome e salários que não tinha, não estava escrito que tinha que ser como foi sonhado. – “Fodam-se vocês todos! Que pra fazer pêça, tem que investir... hahahaha”
E o Louco e seu sonho deram as caras a primeira vez (Chama-se estréia, bom que se diga). Uma bosta, erros, escuro, cigarro apagado na única hora que devia não estar, vinho derramado, outro esquecido e Ainda a televisão que não devia estar, mas estava, devia ser lembrada e não foi (Erro meu porra! Também quem manda o Louco me deixar sozinha pra fazer e desfazer todo seu sonho depois de tanto tempo longe?) Ah... esqueci, não de falar desta vez, esqueci de dizer agora que Ainda perdi a cabeça pra fora da luz (Perdoa essa atriz que nunca esteve em foco, por não saber que pra ter cabeça tem que ter luz, perdoa vai, ensina...)
E o primeiro delírio do Louco aconteceu diante duns olhos amigos, medrosos das nossas cagadas, mas muito entusiasmados de ver a brincadeira.
Até um par de olhos viu mais do que o Louco escreveu e quis chegar mais perto, pediu e-mail e hoje olha de pertinho, ora vejam! Obrigada, Louco, tenho que te agradecer muito por isso!
Mas o lugar que era errado espantou, confundiu, deu preguiça e ninguém mais viu a gente brincar.
Agora sobrou um último tanto de generosidade pra gente pagar.
Ainda podemos tentar de novo...
Ainda vamos fazer bonito...
Ainda acreditamos nesse jogo... Nem todos, né.
E eu vi o Louco chorar de dor, por uma página branca que um dia ele teve coragem de riscar.

(Te amo Claudio, culpa da Li)

Anotações na margem

Tenho medo de olhar, acreditar, e assumir que amar de novo estava fora dos planos.

O prazer deveria ser poesia concreta, acabada em versos curtos, gozadas rápidas sem vírgula nem ponto final. Três pontinhos pra deixar a história com ares de inacabada ou eterna.

Por que o medo? De que?
- Do tempo.

Só os grandes clássicos são relidos sempre e a qualquer momento transformadores. Trágicos e definitivos.

O tempo assina meu bilhete homicida, de sensações e sentimentos. Ele que marca a carne dia após dia, murcha os seios, deforma o ventre, seca o desejo.

Quem sabe um conto, curto, erótico, belo e estéril, pra contar a novidade da conquista e só!

Dois relógios, duas eras, que num hoje iluminado de gelatinas coloridas e fumaça de cigarros acabaram se olhando pra contar minutos de espera.

Dois textos traçados de palavras e vontades. Jogos poéticos e um que de sem estilo (olhos de admiração não lêem rimas).

Ainda não crê no meu medo, no tempo? Há um único segundo sincrônico nas duas estrofes. Descobre qual é, te desafio...

O esquecimento. O adeus.

Primeiro reflexo de olhos reais (Puro & Depravado)

Tudo é ciclo.
Nascer, crescer, amar, desamar, esquecer...
Sim, certas coisas nunca mudam.
Mas há amores que persistem além do tempo.
Sabores impregnando lençóis, cheiros vívidos na madeira, memória, da cama, gemidos e gritos entranhados nas paredes, restos de prazeres trêmulos, arfantes, dissonantes e roucos, gotejados pelo chão.
Não há fim.
Contrário à paixão é o esquecimento.
O ódio intumesce o tempo; o sangue lateja, penetra na alma ferida, aberta, e fecunda as raízes da dor que não se pode apagar.

04 setembro 2006

Refletindo outras imagens

Lembro que contei um dia, de um amigo que escrevia um post pra cada paquera dele no blog.
Sempre me diverti muito com isso, deixava comentários nas postagens, sem queimar o filme dele é claro, mas escrevia minhas imagens poéticas a partir das cantadas recebidas por outras mulheres.
Sabe o que é curioso? Re-li o blog dele outro dia e percebi que as musas nunca diziam mais do que algumas palavrinhas como lindo... obrigada...
O que há com o mundo? Porque as paixões não transbordam em letras e palavras depois uma linda declaração de amor?
Sei lá. Talvez a estranha seja eu.

03 setembro 2006

Trilha sonora

Melodia e poesia compõem a trilha sonora da vida. Algumas músicas ficam na memória e passam a interferir no enredo, fazendo juz ao conceito de melodrama.
Também tenho canções que traduzem minha história. Uma delas, neste momento, serpenteia em minha mente e não me deixa esquecer a verdade. Não vou cantar aqui. Haverá sempre tempo e lugar para os acordes dissonantes.

01 setembro 2006

Roubando a cena

Eu bem que poderia buscar um trecho de Pessoa na voz do Caieiro pra falar da paz e inquietude de ler um texto teu. Ou roubar um verso de algum poeta jovem e louco que traduzisse em melodia o quadro que me salta aos olhos, de paisagem bucólica e rebanhos levados pelo vento. Não seria Lobão o nosso guardador de rebanhos afinal? Curiosa a mágica das palavras: Veio o vento e te levou...
Não vou roubar nenhum poeta desta vez. Relembro um verso original, se quiser te empresto pro teu momento de escuridão:
Não há espelhos no tempo que distorçam minha verdade.

29 agosto 2006

Crise

Há um momento da nossa peça em que pergunto, mas que crise? Nunca tinha pensado nesta fala como algo diferente de momento complicado, de difícil solução, até que escutei dramaturgos (vocês, meus amigos) falando sobre estrutura de dramaturgia e a crise que prepara o desenlace da trama. Não sei se era a intensão, mas passei a pensar naquela cena como uma crise que não deveria existir naquele momento, pois minha personagem, como ferramente do autor, entenderia da estrutura a ponto de identificar que aquela hora não era a da crise afinal.
Guardei comigo e penso a cada apresentação em como mostrar isso ao público. A crise tem hora pra contecer, não a que queremos, muito menos aquela pra qual estamos preparados, mas hora em que tudo o que se contruiu no roteiro se acumula e explode em urgência de reação.
Essa viajenzinha no universo dramaturgico me fez pensar no cotidiano. Nossas vidas. Escolhas.
Decidimos em algum momento, vivenciar a fé de maneira ativa, estudar preceitos, adequar condutas. Muitos pensam que isso é uma busca pela paz, mas na verdade é um comprometimento que passa longe da mera contemplação e exige esforço, dedicação e até esquecimento, pra que ocorra de forma autentica e nos eleve espiritualmente.
Assim vivo minha fé, muitas vezes disforme. Apreendo elementos, acumulo experiências até que a crise verdadeira me cobre o resgate das condutas esquecidas e me deixe escolher se quero enfrentar tudo sozinha, baseada na lógica, ou se quero crer que todos os problemas tem solução, contrariando esperanças machucadas.
As crises virão, sempre. A cada recomeço, escolho a disciplina e assumo a fé.

Entre preces

Certa vez, numa madrugada gelada de São Paulo, meu filho teve febre. Eu tinha prometido um trabalho para o dia seguinte, logo cedo, e pretendia passar a madrugada trabalhando pra honrar o pedido. Aquela febre, repentina e forte, sacudiu meus planos e me colocou em desespero.
Muitos motivos de preocupação, evidente. Um filho doente nos põe em alerta. Eu queria entregar o tal serviço para pagar o plano de saúde, atrasado no roldão de outras inúmeras contas. Sabia que sem o pagamento não seríamos atendidos, por isso a urgência em exigir do corpo e da mente algumas horas mais de vigília pra sanar essa parte do problema.
Mas o pequeno acordava a cada meia hora, se virava do avesso despejando fora os restos da janta, do chá que preparei antes do sono, dos remédios que eu dava tentando minimizar o desconforto. Tudo o que me pedia, sem entender direito o que sentia, é que eu ficasse do lado de sua cama, massageando suas costas que ardiam sem parar. Assim eu ficava por vinte minutos até que seus olhinhos dessem um sinal de relaxamento e voltava à encomenda que garantiria a dignidade de uma consulta com o médico. Em pouco tempo de trabalho eu o ouvia chorando e voltava rápido ao seu quarto, pra trocar suas roupinhas molhadas e recomeçar o ritual de carinhos até a próxima onda de sono.
Já avançava a madrugada, ele ainda acordando de tempos em tempos, e eu já muito descompensada pelas horas de cuidados e trabalhos inacabados, quando ele me disse - mamãe, eu te amo de um tamanho maior que tudo. Retribui a declaração com um beijo e um "eu também te amo mais que tudo".
Em sua reflexão de menino, muito seriamente, me perguntou se o planeta era o maior tamanho de tudo. Expliquei que o planeta é grande, mas o universo é maior. - E o que é maior que o universo, disparou no segundo seguinte. Minha reposta imediata não podia ser outra: Maior que o universo é Deus. Já retomando a sonolência, ele se aninhou no meu colo e disse que me amava do tamanho de Deus. Assim fechou os olhinhos e senti seu corpo relaxar novamente, pra mais alguns minutos de descanso.
Saí do quarto atordoada.
Cabe tanto amor assim numa existência de criança? Me ama e se consola com um beijo e eu não posso lhe garantir a segurança de um remedinho certo ou da visita ao médico? Eu lhe digo que logo vai sentir-se melhor e ele acredita em mim, simplesmente porque é a mãe quem fala...
Quando voltei ao computador, na esperança de continuar o trabalho, já não conseguia enxergar a tela, estava exausta, descrente de mim, e uma voz fraquinha me lembrava que tem horas pra se crer sem explicações. Meu filho tem fé.
Tentando manter os olhos abertos, certa de que não conseguiria mais entregar o trabalho, me vi chorando, me vi pedindo forças, me senti rezando pra que o "Deus que é maior que tudo" me desse forças além da conta e mantivesse envolto, protegido meu anjinho, até que eu pudesse lhe assistir como se deve.
E não era mais o Deus Pai que me respondia. Lembrei das vinte horas de trabalho de parto em que me mantive forte e crente na minha capacidade. Recordei o rosto tranqüilo de meu bebê, saído do meu ventre, cuja única preocupação aparente era sentir-se acolhido no meu peito. A partir deste dia minhas preces todas foram instintivamente dirigidas ao Deus que também é Mãe, que sabe tirar ânimo além de todos os limites e protege no útero seus filhinhos até que chegue a paz.

28 agosto 2006

Chuva e Terra

Visitei um oceano e dancei lembrando as minhas cantigas de ninar e as mamadeiras no meio da madrugada.


Sou muito água. Nos olhos, na pele, na boca, nos seios, no sexo, muita água e sentimento escorrendo sempre sem controle.
Quando criança também me ensinaram a não bater os pés no chão por querer o que não podia.

- Chora, mas não sapateia, dizia minha mãe.

Sem saber ela me formou uma fonte sempre jorrando, e me absorvendo na terra, ignorante da magia e da fecundidade de meu corpo de mulher.
Muito tempo fui garoa ininterrupta encharcando a terra, fazendo lama sem entender de sementes e brotos. Desfigurada, mole e amorfa, eu erodia meus sentidos.
Foi preciso crescer, amar, gozar, sofrer, esperar e muito chorar pra eu entender o que não me foi dito.
Bater os pés no chão com a força do desgosto ou do desejo descontrolado, pra que a Terra, sagrada mãe, me devolvesse impulso e vitalidade. Não sei porque essa mágica me foi escondida, mas hoje sei que na fluidez da minha feminilidade, tenho o taconear, que faz tremer o chão e ainda posso chover minha vida nos caminhos da minha vontade.

Coisa de menina

Adoro esmalte vermelho. Adoro mini saia. Adoro maquiagem forte, cabelos longos (pintados de preto) e salto alto. Fumo feito chaminé! O barato é que todos os meus amigos (todos mesmo) dizem que sou santa... Engraçadas essas coisas de mulher.
Hoje estou de esmalte preto, por causa da Rubrica e vou ficar assim por mais um mês, enquanto durar a temporada da peça. Só não tenho altura pra parecer a Mortícia Adams.

Meu coração, não sei porque...

Um mar de gente cantando junto músicas eternas... Era tudo o que eu precisava pra espantar os meus fantasmas de artísta. Sem saber você me deu hoje um presente. Sentir uma amiga querida se emocionando no palco, olhando pro céu e abençoando ouvidos, foi realmente a força que eu precisava no meu mundinho de cena e palavra.
Quero te ver, escutar. Seria legal até participar daquela roda sagrada com fogueira e vinho, quem sabe descobrindo novas cores de esmaltes, só por diversão.
Não fica longe, não. Perdoa meu silêncio. Acredita no meu carinho. Você é uma das melhores amigas que tive a graça de conhecer... só falta o abraço apertado pra tudo fazer sentido.

Começar, enfim.

Venho fingindo um recomeço eterno há muito tempo. De tanto treino pareço até saber o que é começar de novo, mas como dizem lá em casa, ensaio é bom, mas a mágica só acontece diante do público.
Deixa eu beber essas palavras, ler mais uma vez as tuas dores e descobrir o que falta no meu enredo pra que vire verdade. Estou cansada de sonhar que amo, preferia viver a certeza de um fim, só pra poder de uma vez por todas recomeçar.

Saudade de conhecer

Fiquei calada um tempão e as duas "vozes tecladas", as mais importantes pra mim, aceitaram meu silêncio. Não sei se por respeito ao meu sumiço ou pela correria da vida, não te ouvi mais.
Hoje voltei aqui pra te lembrar que te gosto muito e acabei e me deparando com promessas de parceira com a Cigarra! Lindo de pensar é a verdade.
Já que não posso superar o fuso horário, ou o parafuso financeiro que me acorrenta aqui em Sampa, vou sonhando com um bate papo regado à música e algo mais... Um dia esse abraço vai ter que acontecer.

24 agosto 2006

Reflexos da tabacaria

Não sei se o Álvaro, persona de Fernando estava certo. No fundo tendo a acreditar que sim porque aprendi que as palavras que nos tocam o íntimo são as mais carregadas de verdade.
Palavras. Vieram com cheiro de nicotina, gosto de rodapé de página mil vezes lida tentando encontrar uma saída pra tanta verdade que não quero que exista.
Há sim e é rude, o destino de tudo o que existe. Todas as madrugadas do mundo são uma miséria de existência, e como nos parecem intensas por toda a vida, imensas e repletas de interrogações só porque temos a obrigação de existir sem sentido e prosperar, e procriar, e criar, e aprender. Tudo pra saber que sempre haverá outro maço de cigarro e outro poema. Haverá o sempre e os que se deparam com o nada.

No escuro

Fiquei sem luz faz alguns dias. Deixei atrasar a conta além do limite e cortaram. A geladeira que há tempos trabalhava pra esfriar uma garrafa d'água finalmente teve descanso.
Sem luz não tinha computador, não tinha blog nem bate papo. Descobri o tamanho da minha solidão. Sem eletricidade eu não tenho amigos.
Meu filho chegou da creche e chorou com a notícia de que não tinha luz porque não paguei a conta, mesmo podendo ver TV na casa da vó, não era o bastante pra ele. Queria a tranqüilidade do clique no botão que magicamente espanta o bixo-papão do quarto à noite.
Naquele fim de tarde, sentei no quintal consolando meu anjinho, tentando explicar que trabalhei sim pra ter o dinheiro, mas não ganhei o suficiente. Disse que às vezes lutamos muito, mas era preciso lutar mais um pouquinho. Contei pra ele que tem muita gente que trabalha a vida toda e vive no aperto, crianças que não ganham presentes e ainda trabalham no sol e no frio pra ajudar aos pais. Contei que falta trabalho pra muita gente que precisa comprar feijão, e como não tem trabalho, não tem feijão.
Naquele anoitecer enchi a casa de velas, deitei do lado do meu filho contando historinha de formigas e cigarras. Ele dormiu e eu chorei baixinho.
No dia seguinte o Sol, mais do que bem vindo marcou o vinco das minhas olheiras. Tive certeza: Não sei o que faria da vida sem a luz do Sol.

09 agosto 2006

Karma ou paixão

Esperei, espero sempre.
E se ele chega e não me encontra. Se me vê e não me acha. E se me olha e pensa que é espelho, sorri e vai embora por estar muito cheio de si, por estar muito cansado de ser e reviver?
Ele veio certa noite e eu me moldei no seu peito, senti sua falta de ar, me embriaguei nas suas memórias, vivi suas aventuras e sofri suas angústias.
Ele veio, eu me entreguei, me neguei, me prostrei. Ele limpou os pés cansados e não me viu.
Desde então vou com ele. Sigo grudada na sola do seu sapato...

Ciclos em revolução


A vida é ciclo eternamente. A cada repetição há um pequeno avanço, não exatamente uma melhora, mas uma mudança de qualidade que deforma a linha da vida e a transforma em espiral.
É por isso que a cada volta, algo novo pode se manifestar como versão inédita do caminho eterno.
Amor, dor, sonho e desilusão são as fibras dessa linha de tempo.
Cabe a cada solitário fortalecer a trama, fiar uma corrente forte o bastante que suporte as revoluções abruptas que sempre estão por vir.
Se duas destas finas espirais finalmente se entrelaçam, podem por mágica tecer uma renda, frágil e translúcida como uma asa de borboleta, mas única, por isso bela.
Isso é amor? Prefiro pensar que essa fina renda seja um lençol que acolhe e protege os corpos amantes que fecundarão o mundo.

27 julho 2006

Falando com Deus

Às vezes falo com Deus. Nem sempre percebo que errei a saudação ou perdi a linha no meio da prece, retomo de onde lembro, ou do trecho mais significativo pro meu momento de dúvida ou dor e sigo adiante.
Curioso é que as respostas nunca vem de maneira clara, diretamente à minha súplica. Podem surgir numa música, um sabor gostoso da comida, uns tambores batucando lá longe, o rosto do filho dormindo, um arrepio ao telefone ouvindo a voz quem se deseja. Será isso mesmo? Ele se faz presente na minha sensibilidade pra que eu não desista, melhore, acredite e sobretudo agradeça por estar viva!
Não sei se é por incapacidade minha de aceitar dogmas, ou se a ética é tão repleta de sentido, que não me apego às orações, mas defitivamente me sinto acolhida por um imenso amor de pai e por uma magia fecunda e transformadora de um Deus que também é mãe.

Corpo

Eita! Tanta postagem linda, essas conversas com a Marla, a música, o Quintana... E vou comentar justo a Sharon Stone! HaHaHaHaHa...
Sabe que todo dia eu acordo me cobrando uns duzentos abdominais e alguns cigarros a menos? Depois começo a sonhar que o amor não liga pra isso...

Nossa história

Tenho sonhado acordada com as asas da borboleta.
Não é bem sonhar mas pular vertiginosamente do para-peito a espera de que elas se soltem e me mantenham suspensa no ar.
Ele me disse que posso voar.
Cega, bebo sua voz, acredito.
Outra moldura, também árida e incerta, me abriga em mutação.
Que venha a verdade. Solidão? Eu nego.

Embalando a mudança

Chega a dar inveja... Até da tosse pelo pó levantado, mas principalmente de ter do que se desfazer, de poder sentir saudade do que foi amor herdado e ainda sofrer com a mudança.
Estou na contramão, B. Rasgo os sacos e pacotes novos, de uma vida que não foi vivida, e precisa desesperadamente de nódoas de tempo. Preparo também minha mudança.

Boa sorte. Boa vida.

Estou chegando

Chego a sentir saudades da solidão quando tudo era sonho e a poesia importava mais.
Hoje a realidade são noites de enlace absurdo, universo paralelo de uma prosa que eu não sabia escrever, mas sei cantar, gemer e sussurrar.
Adeus ao lirismo boêmio.
Dentro do meu casulo, transformo nicotina em asas.

Recorte

"Feito amor cigano que a gente prefere esconder para não ter de sofrer..."
Se eu te contasse que tenho essa foto, guardada nuns olhos tristes, você nem entenderia.
Tenho guardado na memória o cheiro do abraço sem fim, da tarde de café, do beijo verdadeiro que nunca foi dado.

13 julho 2006

Esse merece.

Não é fácil ter um amigo com um ótimo texto e ter que deixar recados no blog pra ele saber que agente lê, mesmo que a gente não saiba escrever direito.
Pra facilitar vou usar o lugar comum, mais facinho pra jogar confetes:
Adoro teus textos e sou tua fã!!!!

Beijo, Radical A.

05 julho 2006

Quero tua coragem pra mim.

Lindo dramaturgo!
Vencer a dúvida, a timidez, o medo de errar e expor-se aos limites. Convencionalmente um trabalho presente na vida do ator. Falando por mim, não sou das melhores em correr esses riscos. Busco sempre alguma similaridade com meu repertório parco, onde me sinta confortável e segura. Sei que é um erro, mas quando o venço, me gosto mais, me sinto mais viva, quase uma artista!
Tua atitude humilde de entrega, disponibilidade pra mergulhar num universo denso, como o do teatro Butoh, e ainda a generosidade de dividir esse momento quem precisa da tua voz, gritaram forte dentro de mim...
Tuas pernas doloridas e pés descalços lançaram luz às mesquinharias do meu cotidiano.
Espera-me, eu chego logo, pra retribuir com a alma, me doando ao teu texto, forjando a mesma coragem de me entregar.

04 julho 2006

Um universo numa casca de noz.

Teu caos sagrado me encanta. Nem sei bem o que me apaixona mais, se é a precocidade de quem tem que viver e não pode esperar, ou se é o paradoxo de existir deslocado no tempo e no espaço, vivendo de arte!
Que seja...
A matéria que te compõe é rara e preciosa. Tenho orgulho de poder te tocar, e levar fragmentos comigo. Lascas de existência que ficarão por muito, muito tempo.
É lindo esse teu mundo que finge ordenar o que de mais belo existe na confusão da tua mente jovem. É muito bom te ler de novo.

29 junho 2006

Mire-se

  • T., querida!
Você está certa em olhar no teu espelho de alma e deixar de lado as pinturas toscas que tentam inventar cores e impressões que você de fato não tem.
Mas não resisto a me colocar na tua frente como uma tigela de barro cheia de água onde você também pode se espiar.
Tua imagem vai parecer um pouco distante, misturada a cor de terra no fundo, um pouco ondulada pela tua respiração próxima, mas ainda assim poderá ver teu reflexo. Linda, intensa, honesta, justa e apaixonante.
Depois você volta a falar com teu espelho e conta pra ele que tem alguns traços novos pra ele aprender a te mostrar.
Adoro-te.

28 junho 2006

Não quero acordar.

Acordar dos meus sonhos?
Será esse o destino dos amantes da madrugada, permanecer sempre num sono profundo de olhos abertos esperando a hora de viver?
Da noite pro dia me vi namorada, mas ainda a mulher dos sonhos de alguém. Eu disse sim? E o que eu deveria sentir agora? Do que estou fugindo afinal...
Perguntava ao céu gelado, repleto de luz, qual o próximo passo antes de fechar atrás de mim as portas do desejo poético, do beijo tantas vezes desenhado, das palavras apagadas por não se poder dizer (amor)... Chegou a hora de abandonar coerentemente o eterno romance (perfeito)?
A plena luz do dia me obrigava a fechar os olhos pra não ver a realidade, já tão perto de ser vida. O que eu via era meu corpo flutuando pra longe negando a certeza da solidão.
Da noite pro dia um convite declinado e o coração querendo lutar pelo impossível.
Novamente é noite e espero um telefonema que não virá, mas não consigo sentir tristeza. Logo vem a madrugada e poderei sonhar de novo.

26 junho 2006

É que somos mulheres, e amamos.

Sinto-me tão em casa dentro do teu sonho que chego a pensar que o amor é muito igual ao amor em todo lugar. Não é que eu queira diminuir, diluir, simplificar tua história, é que você traduz de um jeito tão lindo essa dor que eu fico pequenininha tentando inventar palavras diferentes pra dizer que sinto o mesmo.
Digo somente que tua saudade é mais bonita.

Aos amigos Alexandre, Hilal e seu djinn-writer

Só tenho a agradecer por este mundo paralelo que a louca tecnologia nos abriu. Poder te conhecer e também te perceber em momentos de diálogo interior, prazeirosamente dividos com outros tantos loucos virtuais, é realmente uma bênção pós moderna. A partir de agora vou te ler com outros olhos e brincar de ouvir tuas vozes misturadas aos meus próprios delírios.
Mando um beijo, um abraço e um cheiro... Decidam entre vocês a divisão dos carinhos!

25 junho 2006

Beijo maldito

Canalha, depravado, sensual e beija.
Prefiro assim. Cafajestão mesmo. Boca aberta e língua. Só.
Se cala, brinca, lambe, chupa, vira, morde, invade e ri!

Estúpida aquela outra boca saborosa e curiosa.
Maldito?
Disse pobrema.

Amigo do amigo distante

Não conheci o Julio. Não te conheço também. Não conheço nada desses dos pequenos universos que reproduzem o grande cosmos com expansões de energia, calor, explosões pra depois tudo ruir num buraco negro que chamamos solidão.
Resta o vácuo, vazio de luz, o nada.

Fechei os olhos pra te ler melhor.

Verde, sabor e som.

Minha querida cigarra.
Quando eu for te visitar vou te achar pela casa das plantas que cantam!
Mas quero te ouvir também... Então reúna quem gosta violão, comida caseira e cerveja. Os artístas frustrados, poetas insones e pais e mães de crianças saudáveis! Os pequenos brincam, a gente cozinha e quando a garotada cansar começamos nossas brincadeiras.
Estou carente, quero colo, cafuné, paparico. Um falso amor de fim de semana pode até cair bem.
Beijos...

Ao poeta da madrugada

Perto do recomeço

Eu leria tudo o que deixei pra trás antes de te dizer uma palavra. Buscaria o ponto em que não me despedi pra recomeçar nosso caminho. Tentaria absorver tuas rimas me corrompendo o peito a ponto de soar algum acorde melódico, poético, não fútil. Viria pra te mostrar que te gosto muito e que minha ausência na tua vida de sonho dói e que tuas imagens me são caras porque falam diretamente à minha alma.
Mas li até a terceira página, buscando alento, tentando não chorar feito criança. Vim e encontrei dores mais poéticas do que suporta meu encanto medíocre.
Você é poeta e pode contar amores, sonhos, desencontros e porres. E encanta como sempre, me leva pela mão. Você poeta, me dê licença pra chorar no teu colo meus sonhos desfeitos até que um dia, amigos, nos encontremos pra beber todas as lágrimas que não fui capaz de escrever.

Filha da Terra

Ah, meu querido poeta...
Porque não te vi ontém, quando a esperança era o tom e o compasso da minha dança? Eu brincava de saltar de um poste a outro, e acreditava que voaria até o último degrau só por ser mulher e me doar por inteiro. Veio uma onda forte, lavou-me toda. Os cabelos molhados, escorridos nos ombros não dançavam mais com o vento. A roupa colada no corpo, longe de despertar desejos, evidenciava as marcas do tempo e da vida, do que se esconde aos olhos com um copo a mais de cerveja. Os pés molhados, ecorregavam num desequilíbrio patético, deixando-me agachada, agarrando o pequeno pedestal com as unhas mal pintadas.
Sim. Do alto de um altar de sonho, finjo ser a musa que entende e domina os tempos da Terra. Mas assim despenteada, não passo mesmo um grão de argila, e me curvo às pressões da grande mãe.

20 junho 2006

Erros certos

Li no dia certo.
O dia em que voltei a acreditar e enxuguei os olhos.
No momento em que a saudade já virava uma prece de bem querer, e a liberdade doía menos, eu li os teus erros e acertos.
Tentemos, R.! Sempre...

Beijo.

M., mulher!
Eu quase que me desfaço junto nesse beijo. E o meu corpo buscava o toque de um sonho aveludado e calmo, as asas de um anjo que fossem proteção e pecado.
Então abri os olhos e vi que a linguagem do amor é mesmo penumbra, e as mulheres são professoras de tradução.

Obrigada pelo carinho...

Cacau

Tu lês o mundo buscando o amor.
Desenhas com a ponta dos dedos.
É como o beijo da língua.
A mesma que beija e rouba o gosto do amor,
te serve e transforma saudade em poema.
A prosa encontra o conto
do que se sentiu sem ver.

O sempre melhor que antes e depois.

E da tua língua escrita,
as palavras de amor tem outros nomes.
Texto nascido da ponta dos dedos de carinho.
Palavras molhadas de orvalho da língua.

19 junho 2006

Capitu

A.!
Deliciosa a música lilás no teu mundo rosa.
Mas hoje estou azul.
Quanto mais amigos, flertes, sonhos e desejos virtuais, mais eu preciso da simplicidade e do anonimato de uma vidinha real.
Você é parte da melhor parte desta vida que eu quero.
(Vamos fazer aquela porra dar certo!!! Entrei pro time do tudo ou nada e não aceito sair de cena aos 32... preciso de você)
Te amo.
(Márcia)

Ao meu amigo.

J.
Hoje eu sou a escritora do lugar comum. Sem estilo, ou idéia relevante.
Vou dizer que passei boa parte da noite chorando por um amor irrealizável, que vi um filme e chorei sozinha no meu quarto, que assisti a um espetáculo de teatro que de tão lindo foi mágico e me fez rir, chorar e questionar meus sonhos e projetos (inclusive a pobreza do meu desempenho na peça que deve estrear em breve).
Não estou sendo lírica como você conhece, nem usando alguma figura de estilo pra realçar algo no texto. Sou eu falando com você. E poderia escrever por e-mail, mas preciso que fique resgistrado, então vou postar aqui, no lugar que tenho para os comentários, para as coisas que escrevo em resposta ao que leio.
Você sabe aquela montanha russa emocional à qual nos habituamos e achamos que é normal? Desde ontem comecei um mergulho e ainda estou chorando feito criança assustada. Exagero falar em choro tantas vezes num texto tão curto? Não, pois estou sendo literal e abusando do direito de me expor sem pensar nas conseqüências. Neste momento ainda choro. Fato.

Hoje acordei atrasada, evitei o espelho do banheiro que me faria cobranças, fumei dois cigarros seguidos sem nem pensar porquê, fui começar a trabalhar. Prometi a mim mesma não ligar a internet e com a determinação anulada pela falta de perspectivas, ou de auto-estima, foi a primeira coisa que fiz. Cheguei, liguei o msn, entrei no orkut. Eu procurava uma resposta que não veio, mas vi entre algumas mensagens, a tua intitulada Ultimo Informativo. Abri curiosa e tive um choque. Teimosamente cliquei em cada um dos links pra conferir e era verdade. Matas-te teus blogs. Então procurei no teu perfil de Bloguer um endereço novo. Não havia. O primeiro pensamento que tive foi que você estivesse com problemas, tivesse perdido o computador, ou não tivesse mais acesso à internet por falta de pagamento. Eu entenderia bem o último motivo, porque pra mim isso está bem perto de acontecer. Mas logo me deu raiva. Deixei de pensar nas tuas dificuldades e motivos, desejei nem saber de motivos, desejei que nem arquivos houvesse pra se consultar, desejei que você se perdesse no teu egoísmo.

Impossível negar que chorei de novo por não te entender. Chorei por mim, por sentir como uma perda pessoal inestimável como se fosse um amigo que mudasse de cidade sem deixar o endereço novo. Senti pena de mim por ser muito mais egoísta que você e querer a tua inspiração pra roubar pedacinhos e escrever meus poemas.
Mas não quero saber do motivo do bloguicídio. Talvez eu esteja completamente enganada e você ria do meu desabafo. Talvez eu nunca te entenda de verdade. Tudo o que eu queria era a tranqüilidade de poder te ver falando das tuas dores e dúvidas, grandes questões de vida e existência e desviar os olhos de dentro de mim onde agora está muito frio.
Porra J.!!!!
O teu silêncio repentino me obrigou a ouvir a minha voz.
O que eu ouvi? Não vou te contar.

13 junho 2006

A casa

Sentir-se em casa. É o sentimento que evoca a indefinição do poema.
Sentir-me em casa, seja ela qual for, ou a que for neste momento. Não a que me pariu, nem a das memórias puras de infância ou ideais de juventude... Estas eu deixei pra trás.
Falo da casa que habito e tenho que chamar de minha. Fora dela não tenho uma outra.
Derrubo fios de cabelos nos cantos e marcas de cigarro na madeira do assoalho como quem luta por deixar uma marca que a identifique, já que não é de fato um lar. Ela não é tão pequena que não me caiba, ou tão pouco iluminada que não brote um ramo de quebra-pedra, mas daí a ser minha carece de muita coisa ainda. Precisa de uma história que seja realmente minha, não plantada por outras mãos. Minha casa não tem portas. Minha consciência como o coração também se expõe desprotegida. Mas como disse, esta não é a minha velha casa da utopia. Que seja. É onde moro, como, durmo, sonho, e pra todos os efeitos, minha casa.

Lembrei dos meus 20 anos, quando achava a casa muito pequena. Lembrei de palavras de ordem e papéis, papéis, papéis, que eu preenchia, distribuía, escondia nos bolsos junto com aquele número de telefone caso algo desse errado. Papéis pelos quais eu punha a mão no fogo e hoje alimentam a fogueira dos que proclamam: Quanto pior melhor!!!!

Seja um universo de cidade, de casa, de alma, fazemos nossa morada, nos sujeitamos a ela, e vemos suas paredes descascarem... Até que seja hora de mudar.

06 junho 2006

22 - Para J. K.


Um dia, 21 anos
Tudo era muito
Muito era mais do que eu precisava,
mas ainda era o mundo que eu queria.
Acreditava, construía, reformava
O sino e a prece conduziam minhas escolhas,
eu ainda não sabia o que era moral.

Engolia moralidades e trepava na escada do apartamento.
Segura por amar e ser e sentir
descobria o desejo
aprendia a dor.
Amava.

Desprezo e uma barriga vazia.
Mergulhava numa louca espiral de saber meu corpo inútil.
Natural, menina mulher
guardava este desejo pra quem sabe nunca.
Resignada, sangrava...
No tempo, e de novo, e mais outra vez.

Eram figuras de sombras
que eu seguia em procissão
O grito, a marcha, bandeiras:
Paixão de vermelho!
Utopia de branco!
No peito a estrela.

De tantas palavras bem ditas,
um rosto de anjo,
alguma inquietude...
Me vi artista.
Queria negar a teoria das paralelas
e ser de duas vidas a mais poética.

Mas as paralelas
jamais se encontrariam.
Cega, eu amava e desfazia os planos.
Era A outra. Esquecida. Mulher sem vida.
A outra vida
que me era roubada.

Consentimento
Com sentimento

Não sabia que era impossível.
Romântica e prepotente.
Eu não sabia que era impossível.

Dançava em rodopios,
flutuava, não que fosse leve.
Carregava um bolsa imensa
repleta de tudo e todos,
e idolatrava aquelas alças frágeis,
que costurava com esmero.
Os dedos feridos da agulha
de não deixar nada nem ninguém pra trás.

Eu tinha já 21 e acreditava em ideais.
Eu tinha ainda 21 e caminhos não havia.
Eu jogava meus 21 e as regras eram injustas.

Eu fiz 22 e neste dia chorei de pressentimento.
Logo eu faço 32 e meu rosto ainda está molhado.